3.8.11

"Contos inacabados de UMA banda...qualquer..." Capítulo 2

“The yellow brick road…”

 “ os olhos são o espelho da alma…”…perante o olhar inquisidor do “Strings” esta frase tão sobejamente utilizada toma por breves instantes de assalto o meu pensamento, dando desta forma início a mais um round deste nosso “jogo”…enquanto os sons agora libertados assumem o seu devido lugar na minha mente, recordo involuntariamente o porquê deste “jogo”…

Por ilustrarem momentos tão pessoais e íntimos o “Strings” e eu sempre achámos que para verdadeiramente tocar a alma de alguém nada melhor do que recorrer às músicas e livros que fazem parte do labirinto narcísico de cada um…a ser verdade que os olhos não mentem o que dizer então do corpo?...a música tem de facto esse condão…provoca em nós espasmos e reacções incontroladas…imediatas…despidas de toda e qualquer embuste…assume as rédeas do nosso sistema neurológico…expõe-nos…

Na verdade formar uma banda poderia ser entendido como apenas juntar 3 ou 4 pessoas e as respectivas influências…Meter tudo numa panela...mexer bem…cozinhar em lume brando e esperar pelo resultado final…mas …o que sempre nos interessou foi a mensagem…o que dizer…e sobretudo qual seria a “roupa” que essa mensagem iria “vestir”…e sem querer ferir gostos gastronómicos nunca gostei de sardinhas com morangos…

Não…uma mera colagem não…o “Strings” e eu já tínhamos determinado que o que quer que um dia viesse a ser feito teria a preposição de ser algo recém-nascido…e para isso acontecer não poderia haver casuais sobreposições de géneros e óbvias soluções…teríamos de ser capazes de descobrir e alimentar um fio condutor…um universo que fosse só nosso e não de cada um…um mundo onde poderíamos existir como um todo e não como uma mera soma de peças…num universo paralelo onde as leis seriam ditadas por nós… e este “jogo” servia exactamente esse propósito…despir-nos de um imediatismo fácil…mergulharmos mais fundo…descobrir a capacidade de pôr em causa tudo o que sabíamos…negar até a nossa própria existência musical…tudo…somente para conseguir ter no final uns meros grãos de areia…a quinta-essência da matéria-prima necessária à nossa futura moldagem…

A intensidade dessas já decorridas 3 horas era extenuante…as constantes e amigáveis ratoeiras …a avassaladora concentração para sem diálogos descobrir o que o outro queria tornar visível …cada cd utilizado…cada música ouvida…não passavam de um exercício no decorrer do qual estávamos a descobrir não o formato mas sim o motivo de tal contemplação sonora…construir a estrada…criar novas regras…aprender a percorrê-la sem nunca chegar ao fim…não é assim Dorothy ?

- “Il Dottori”?...estás a falar a sério?...achas que o gajo topava?...isso era genial!...esse gajo é o vocalista menos “vocalista” que já conheci até hoje…

A linguagem gestual utilizada pelo “Strings” ao proferir estas palavras era denunciadora da sua óbvia e imediata concordância.

Na realidade eles nunca tinham tocado juntos…apenas eu tinha tido essa sorte…mas cedo percebi ao longo da nossa ancestral e longínqua relação que o “Strings” mantinha e referia-se sempre ao “Dottori” como alguém merecedor de reverência e nunca visto como “mais um” vocalista mas antes como uma entidade criadora muito distante dessa figura infelizmente tantas vezes fútil.

Observo o “Strings” enquanto o seu semblante passa da fase de exaltação pura para a de reflexão e racionalidade adequada à notícia.

- Mmmm…se me falas do “Dottori” então o caso muda de figura…é que não estou a vê-lo a meter-se nalguma coisa sem pernas para andar só pelo “gozo” de dizer que faz parte de uma banda…ele é demasiado consciente e distante deste “meio” para isso…esse gajo é um crâniozito pá!

- Pá…se tenho a tua aprovação…deixa isso comigo…até digo-te mais…telefono-lhe já amanhã…e garanto-te que o gajo diz que sim!

“Il Dottori” e eu conhecíamo-nos de longa data…tínhamos dado os primeiros passos juntos…a velha história…eu toco guitarra…tu também…mas eu não sei cantar…e tu sim…’bora formar uma banda e tocar…durante anos tínhamos existido no circuito de bares de forma mais ou menos contínua e consistente…dependendo da formação mas sobretudo do estado da nossa relação…a cumplicidade e respeito mútuo falava mais alto do que a enganadora vontade de “viver” uma ilusória vida de banda…Persistia sempre esta certeza de que ele era o MEU vocalista…aquele com o qual saberia sempre o que não dizer…o que não tocar…o que não fazer…no fundo conseguia ver-nos como a continuação do legado de uns Jagger/Richards ou Page/Plant…

As diferenças comportamentais eram no entanto mais do que evidentes…apesar de sermos as duas faces de uma mesma moeda e de ter conseguido criar em conjunto momentos únicos e inesquecíveis sempre tínhamos tido uma relação amor/ódio…fruto talvez de alguma ingenuidade e leviandade inerente à nossa irreverência…o que, tendo em conta a certeza com a qual tinha apresentado esta solução ao “Strings”, criava-me um enorme problema…

De facto enquanto exibia o meu júbilo, interrogava-me mesmo se ele iria sequer atender uma chamada minha…quanto mais aceitar ser o nosso vocalista…

Afastando esse pensamento com um rápido sacudir de cabeça ergui o meu copo…gesto ao qual o “Strings” correspondeu convicta e solenemente…e proferindo estas palavras demos início à nossa celebração…

- Bem “7”!…por mim está decidido…vocalista já temos!…agora só nos falta é o nome…!!

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