…As pilhas de cds espalhados pelo chão desafiam ostentosamente a opulência das pirâmides do Egipto…por entre o espesso e contagiante fumo do tabaco, vislumbro as caixas…abertas…amontoadas sem ordem alguma…sinais de mundos e ambientes escolhidos…símbolos utilizados uma e outras tantas vezes ao longo de uma estranha noite...
- Bem…e esta? Topa-me bem esta!
Esta frase repentina e proferida a um volume audível na respeitável cidade do Barreiro desperta-me da minha pacífica e dormente contemplação arquitectónica…
- Qual?
Regresso assim ao maravilhoso “jogo” ao qual eu e o “Strings” nos temos dedicado de forma entusiasta…sem tréguas…sem final anunciado…
- Ah ah…Ó “7”…Vamos lá ver se topas esta!
O ruído do leitor de cd a abrir provoca em mim o que, à falta de melhor explicação, deve ser um reflexo de Pavlov, pois mecanicamente vejo-me a abrir, se a memória não me falha, a 3ª garrafa de James Martins. Observo o “Strings” e a sua teatral mestria na arte de pôr um cd a tocar enquanto reponho o que nesta fase concordamos ser o nível adequado de álcool por copo a fim de levar a bom porto a tarefa à qual nos propusemos.
Os acordes iniciais ecoam, funcionando como trilha sonora da expressão facial que o “Strings” assume. Tal qual um guerreiro que deixa para trás um inimigo conquistado e rendido o “Strings” senta-se à mesa...agarra o seu copo…e com um gesto digno de uma estucada final despeja-o…ficando de seguida a observar-me…em total silêncio…
- Não faz sentido pá!...Gajos como nós não podem continuar a “brincar” aos músicos! Gajos como nós, com a nossa criatividade e com o nosso know-how…é pá…a única explicação que encontro é que somos uns gandas estúpidos!
- Olha eu só tenho uma coisa a dizer sobre isso…concordo plenamente! Quer dizer…menos na parte dos gandas estúpidos é claro!
- Então mas tu não achas…já pensaste bem no que estas pessoas não seriam capazes de fazer!
- Pá…“Strings”…‘tás farto de saber qual é a minha opinião em relação a isso…já não é a 1ª vez que puxo esta conversa contigo…Até porque olha…se queres que eu te diga…até já tenho um vocalista para nós…
…em total silêncio…foi em total silêncio que ficámos logo após este diálogo decorrido 3 horas antes…se tal pode ser denominado de diálogo, tendo em conta a forma e as vezes em que estas mesmas frases tinham sido o cantar de cisne de inúmeras conversas entre mim e o “Strings”…e o resultado final seria idêntico a outras tantas vezes em que ambos divagámos sobre a hipótese de formar uma banda…não fosse um “pequeno” e “singelo” factor que até à data nunca tinha entrado na equação…Havia um vocalista…
A mesa de jantar na qual nos encontrávamos sentados tomou de repente a forma de mesa de café refundida num canto escondido…as luzes desvaneceram…os ruídos de copos e talheres a tilintar foram substituídos por um rumble surdo e longínquo…como dois conspiradores da Roma antiga absortos na obscuridade de um plano secreto e diabólico baixámos o nosso tom de voz…
- Vocalista?...mas….quem?
- Pá…”Strings”….quando te disser o nome…é que para mim nem há discussão possível…é o gajo ideal…agora…convencê-lo é que não vai ser nada fácil digo-te já…
- Mas quem “7”?...Diz lá…
- “Il Dottori”
2 comentários:
English version tomorrow...
"alistem-se, diziam eles.." - adorei o texto, espero avidamente por mais episódios. :)
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